Por PY5EG, Atilano de Oms Sobrinho, Boletim CWSP nº 188, Fevereiro de 2003.
O artigo deste mês é de autoria de PY5EG – Atilano Oms Sobrinho, fundador do Grupo Araucária de DX (GADX). Nele, Atilano descreve uma metodologia prática para “caçar” e então eliminar fontes de ruído externo que interferem e atrapalham substancialmente nosso hobby. O assunto foi circulado na lista do grupo com o seguinte depoimento e questionamento de um dos membros:
Olá a todos: Há mais de seis meses que, à noite, meu QRM de linha é de 20 a 30DB, o tempo todo. Posso descartar que ele esteja sendo gerado dentro do QTH, pois já desliguei todas as fontes de energia como lâmpadas e todos os eletrodomésticos (só o rádio ficou ligado) e o QRM permaneceu. Outro fator é que durante o dia o QRM se mantém dentro de padrões razoáveis. Assim, à primeira vista, parece que ele provém de alguma fonte (iluminação pública, talvez) que se aciona automaticamente quando a noite chega. Notadamente, com a antena voltada para o Nordeste a intensidade do QRM é muito mais acentuada. Nos últimos 10 dias, em 80 mts, a única estação que escutei foi o Fred, PY2XB/PY0F, que colocava aqui 40DB!!! Na tomada de força geral, há filtro de linha, assim como na entrada de cada equipamento há também um filtro, sem qualquer resultado prático.Alguém tem alguma receita de como atenuar o problema? – PY7ZY – Xavier
Comentário de PY5EG: Aqui em casa, principalmente quando temos algum conteste, organizamos a sessão que chamamos de “caça barulhos”. Eu tenho um equipamento SUPER SNOOP que nada mais é que uma antena direcional para 2 metros de 3 elementos, um receptor fixo para aquela freqüência. Esse equipamento nós utilizamos para localizar a procedência do ruído, quando estamos a 50 metros da fundamental do ruído. O mesmo equipamento de caça a raposa. O ruído de linha, via de regra, é proveniente de 4 fontes principais, a saber:
- Efeito corona em linhas de distribuição de 13,8 KV (normalmente):
a) Emendas bimetálicas;
b) Amarração da linha nos isoladores;
c) Conexões em derivações;
d) Arames pendurados na linha.
- Fuga a terra também em linhas de distribuição 13,8 KV:
a) Para-raios;
b) Chaves Fusíveis;
c) Isoladores de disco e de pino;
d) Cruzetas de madeira (c/ baixo isolamento);
e) Galhos de árvore fazendo semi conexão a terra;
f) Ninhos de pássaros “João de Barro” próximo ao isolador de pino na cruzeta.
- Fuga a terra ou corona em sub-estações próximas aos nossos QTHs.
- Dispositivos no sistema de baixa tensão da Concessionária:
a) Reatores de iluminação pública;
b) Relês foto-células;
c) Semi curtos temporários entre fases ocasionados por pedaços de arame jogados sobre essa fiação.
Nossos procedimentos da sessão “caça barulhos”:
- 1. Identificar a tendência do ruído, isto é, se a fonte é fuga a terra ou efeito corona:
Se o ruído é com sol quente e clima sem umidade – Corona. Normalmente o ruído ou é interrompido com chuva ou a noite suavizado. Se o ruído aumenta ou aparece com a umidade ou chuva, certamente é de fuga a terra.
- 2. Identificamos a direção principal do ruído:
Com as nossas antenas direcionais e nosso TCVR na freqüência de maior ruído giramos as antenas para a direção de maior sinal do ruído.
- 3. Um dos nossos amigos fica com um equipamento de 2 metros na estação monitorando o rádio e outro amigo experiente vai com o carro (com supressor de ruído) e o SNOOP mais um HT para comunicação com a estação. Esta equipe móvel vai procurando a fundamental do ruído na direção apontada pela direcional (normalmente temos um foto aérea do QTH que cubra aproximadamente um raio de 5 KM);
- 4. Neste ponto já sabemos se o ruído é fuga a terra ou corona. conforme o acima exposto;
- 5. Se for CORONA, percorreremos todas as linhas de distribuição de 13,2 KV num raio inicial de 2 KM, conforme a intensidade do ruído e com o “caça a raposa” a uma distância de 50 metros e a anteninha de 2 metros buscará a direção do ruído de acordo com a intensidade. Quando chegamos bem próximo da fundamental do ruído o aparelho apontará exatamente onde esta o ruído. Se por exemplo o ruído é num determinado poste da linha de 13,2 KV, provocamos um balanço no poste e observaremos o comportamento do ruído. Esse procedimento sempre em contacto através dos 2 metros com a estação. Anotamos o número do poste, por vezes a olho nu ou binóculo se identifica a causa. Chamamos a concessionária local para a manutenção já com o problema analisado. A noite quando o problema de corona é maior pode-se identificar exatamente a fonte do local de geração do ruído através uma luz azul normalmente produzida facilmente visualizada em contraste com a escuridão da noite.
- 6. Se o ruído for produzido por FUGA A TERRA, a identificação visual é mais fácil, e a intensidade do ruído varia de forma diretamente proporcional ao teor da umidade.
OBSERVAÇÕES:
Na maioria dos casos a fundamental do ruído está localizada a no máximo 2 KM de sua antena. Quanto melhor a antena e mais alta, a intensidade do ruído é maior. Seguindo este procedimento a identificação e localização do ruído não pode tardar mais do que 2 horas, por mais densidade de consumidores da região. Ainda não houve “nenhum ruído” que não identificássemos e o eliminássemos em qualquer das nossas 3 estações de contestes ZW5B, ZX5J, ZX0F.
Lamentavelmente o maior problema é que as Concessionárias não tem pessoal qualificado para radio interferência, e a eliminação do problema “tem” que ter a nossa atuação pessoal. Se pedirmos para a Concessionária eliminar um determinado ruído sem a nossa atuação direta, teremos:
- O ruído não será encontrado e muito menos eliminado (na maioria das vezes);
- Ficaremos extremamente amolados com a situação, e ficaremos criticando a concessionária;
- Perderemos DX e Contestes;
- E finalmente perderemos a motivação para “fazer o nosso rádio”.
Esse aparelho extremamente simples e qualquer um de nós pode fazê-lo, ou podemos comprar nos USA por aproximadamente U$ 160 (Acho que vale a pena). Na ausência desde equipamento (existem outros mais sofisticados), pode-se utilizar um rádio de pilha que tenha ondas curtas e FM.
N.E: o artigo foi escrito antes da proliferação desenfreada dos LEDs e das fontes chaveadas em nossas residências e, consequentemente, nas vizinhas. Porém, o artigo ainda fornece informações valiosas sobre ruídos provenientes das redes elétricas e, ainda pode ser bastante útil nos dias atuais.
de PY5EG – Atilano
